6 horas da manhã. Acordei com a mesma dor lancinante. Cheguei ao limite. Estava decidida a ser internada. Mas onde? Bom, de imediato eu precisava tirar a dor. Mandei um comprimido de Buscopan, me troquei, peguei a bolsa e desci o elevador, minha mãe reclamando, querendo que eu esperasse. Esperar o que? As pedrinhas estavam no canal e precisavam sair logo de lá.
Fiquei com dó do zelador do meu prédio, o Mauro, que não podia abandonar a portaria para me levar. Pegamos um táxi até o Hospital Albert Sabin, perto de casa. Chegando lá, as pessoas já me conheciam, mas eu só ouvia. Os olhos permaneciam fechados de dor. Me colocaram na maca, enquanto eu gritava “eu vou morrer”, chorando. As enfermeiras (tinham várias dessa vez) ficaram procurando veias no meu braço para puncionar. Enfim encontraram uma no braço direito, mas não souberam fazer direito o trabalho. Urrei e chorei de dor, e proibi qualquer tentativa de me furarem de novo. A dor começou a passar. Era 8 e meia. Efeito do Buscopan que eu tomei em casa. Uma outra enfermeira, que nem sei de onde surgiu, segurava a minha mão. Comecei a chora compulsivamente, mas não era de dor. Era um desabafo. Falei tudo para ela: que eu não agüentava mais, que eu estava perdendo aula na faculdade, faltando no trabalho, que meu médico era um cuzão porque foi para o Congresso e me deixou naquele estado, que eu odiava aquele Hospital Santa Isabel que era super chique, mas não resolviam porra nenhuma, chorei, chorei, e ela me ouviu. Me acalmei. Veio outro enfermeiro, o Everton, e eu implorei para ele me internar, porque eu não agüentava mais. Ele comprou a minha causa. Brigou com o pessoal da Unimed, e finalmente consegui ser internada. Mas o dia estava longe de acabar.
Instalada no quarto 202, fiquei mais tranqüila. Começou a rotina hospitalar, a qual eu me acostumaria pela próxima semana. Enfermeiros vinham com soro e remédios. O médico passou para avisar que ia marcar a endoscopia, e liberou a dieta leve, que significa: nada de tempero ou gordura. Nhé. Minha mãe e meu namorado se revezaram para pegar roupas e objetos e ficar comigo. Liguei a TV na MTV. Fazia tempo que não assistia. Até gostei dos programas. E me lembrei que um dia eu já quis muito trabalhar lá. Tempos distantes.
Foi anoitecendo. Eu comecei a sentir dor de novo. Nem lembro porque, mas acabei discutindo com a minha mãe - ela devia estar brigando com o Gabriel – e eu expulsei os dois do quarto. Queria comer em paz, e eles ficavam naquele blá blá blá. Comi a comida sem gosto, já fria, chorando. A dor aumentava. Quando percebi, eu estava me contorcendo na cama. Minha pior cólica menstrual era fichinha perto disso. Eu me agarrava ao travesseiro, gritava, arranhava o lençol com minhas unhas. Aqueles foram os piores minutos de toda a minha vida. Liguei para o Gabriel, mas ele tinha ido até a minha casa para pegar meu Nintendo DS. Gritei para minha mãe voltar, mas ela estava naquele maldito mau humor. Eu urrava de dor, e tudo que ela dizia era: “Pára de ser escandalosa”. Eu estava completamente sozinha.
Logo chegou o namorado, e a enfermeira me aplicou morfina. A dor acalmou. Mas meus olhos continuaram inchados e meu coração, assustado e abandonado.
O Gabriel foi embora. Eu e minha mãe assistimos novela, Ugly Betty (que se tornaria minha nova série favorita) e depois eu dormi.
