23.10.08

Dia 4 – Terça-feira, 16 de setembro de 2008

O pior dia de todos, até agora. Fomos ao consultório do Dr. Hélio Smolentzov, meu gastro. Ele verificou os exames e concluiu: “Vamos tirar essa vesícula. É uma cirurgia simples. Mas eu não posso fazer agora. Vou viajar na sexta-feira para um Congresso. Mas nesse mesmo prédio tem um médico que pode fazer isso”. Como era horário de almoço, fomos comer para esperar esse outro médico voltar. Eu comi um pão francês com filé de frango grelhado, o Gabriel comeu um misto quente deliciosamente cheiroso e apetitoso. Ao chegar no consultório do Dr. Paulo Bianchini, a sua secretária, Edna, nos disse que ele não estava lá hoje, e que ele também iria ao Congresso. Xinguei os malditos deuses, e não sei se por causa do nervoso, da comida ou dos dois, comecei a passar bem mal. De novo. A mesmas dores conhecidas, unidas ao desespero de não ter um maldito médico disposto a cuidar de mim, de não saber quando seria a cirurgia... O pesadelo estava só começando.

Edna nos informou que, se fôssemos direto ao hospital, lá haveria cirurgiões de plantão. Ela nos recomendou o Santa Isabel e o Santa Helena, ambos do meu plano de saúde, a Unimed Paulistana. O primeiro estava mais próximo e foi a nossa opção.

2 da tarde. Chegamos ao Santa Isabel. Dores fortes. Mais furo na veia, mais soro, mais exame de sangue. Fizeram mais um ultra-som em mim, enquanto eu estava com dor! E sujaram toda minha calcinha de gel! Aí apareceu um médico com uma novidade: uma pedra que estava na vesícula migrou para o canal da bile (coléduco). O caso era pior do que pensávamos. Era preciso fazer uma endoscopia específica, que empurraria essa pedrinha para o intestino. No entanto, o Santa Isabel não fazia esse procedimento, de forma que eu precisava ser transferida. Eu também não poderia me alimentar, já que o exame seria feito logo após minha chegada ao novo hospital. O processo burocrático ficou evidente. Eram 6 da tarde. A demora para determinar para qual hospital eu iria, e que horas, deixou eu, minha mãe e meu namorado bem nervosos e ansiosos. Às 9 da noite eu ainda estava esperando a ambulância me transferir para o Hospital Santa Cruz. Fiquei putíssima, tirei o acesso da minha veia, gritei com os enfermeiros, a minha mãe começou a chorar e os seguranças filhos da puta com sua força bruta me impediram de tentar tomar um táxi até o hospital. Em 10 minutos, chegou uma ambulância. Perguntamos se eles haviam demorando porque vieram do Santa Cruz.

- Não, a gente saiu da Central da Unimed. É aqui perto. – respondeu o mocinho da ambulância.
- Então por que a demora? – perguntou minha mãe.
- Aí eu não sei, senhora.
- A gente tá indo para o Santa Cruz.
- Aqui tá escrito Cruz Azul.
- Mas disseram para a gente que era Santa Cruz.
- Não, senhora, é o Cruz Azul, um hospital militar, no Cambuci. É do mesmo nível do Santa Isabel.

Eu queria matar todo mundo.

Chegamos no hospital. Feio, velho, sórdido. Claro que me puncionaram de novo. Um enfermeiro todo malandrão, que minha mãe odiou. Fiquei no repouso enquanto ela abria minha ficha. Mas o meu ânimo já estava lá embaixo. Uns 10 minutos depois, ela veio, dizendo que a médica responsável, a Dra. Liliane, queria que eu passasse a noite lê, em jejum, que de manhã o cirurgião iria verificar meu quadro clínico.

20 minutos depois, estávamos em um táxi, voltando para casa. Eu chorava no banco de trás. A minha mãe vociferava contra todos os filhos da puta responsáveis por essa palhaçada toda, a confusão do nome do hospital, a saúde no Brasil está doente, a gente paga convênio e ainda se ferra. O taxista ouvia tudo com paciência. Chegando em casa, tomei chá com biscoito. Não conseguia dormir. Estava com trauma de hospital. Fizeram sacanagem com a gente, e até agora eu não sabia quando eu ia ser operada. A minha mãe e minha tia me acalmaram, e eu finalmente dormi.