Hoje faz um ano exato da minha cirurgia da vesícula. Fisicamente, estou ótima. De vez em quando tenho problemas no estômago, mas é de origem psicossomática. Não tive diarreias ou vômitos. Estou comendo normalmente, exceto por ter descoberto que sou intolerante à lactose - mas não acho que tenha a ver com a vesícula.
Quando eu saí do hospital, e fiquei 10 dias em casa, meu grande sonho tornou-se trabalhar na MTV. Eu corri atrás desse sonho. Descobri que, para trabalhar lá, tinha que fazer o curso de Rádio e TV. Eu estava no segundo ano de Jornalismo. Fui para o terceiro ano, mas sempre indecisa se continuava ou transferia. Enfim, em junho desse ano, decidi fazer a transferência. Tranquei o jornalismo. Infelizmente, a faculdade para onde eu queria me transferir queria me colocar no primeiro ano de Rádio e TV, sem eliminar matérias que eu já tinha feito. Decidi não fazer. Seria tempo demais (já sou formada em Publicidade, ou seja, eu já fiz 6 anos de faculdade no total). Conclusão: não estou estudando agora. Ainda estou em dúvida sobre o que fazer no ano que vem. Se volto para o jornalismo, se vou para Rádio e TV. Mas de uma coisa eu tenho certeza: ainda quero trabalhar na MTV. E se eu tive garra de passar por todo esse processo da vesícula, sei que posso conseguir realizar esse meu sonho também.
As experiências que passamos na vida tendem a nos ensinar coisas, a nos iluminar pontos que antes não enxergávamos; torna-nos mais fortes, mais preparados, mais maduros. Que todos os que passam por aqui possam extrair algo de bom de minha experiência, e também de suas próprias experiências. Quem desiste, nunca vence. Não se preocupe com o futuro. Construa seu presente, tijolo por tijolo, degrau por degrau. Faça o seu melhor. Você vai chegar lá, e nem vai perceber. Tudo que posso oferecer a vocês é meu apoio, e desejar boa sorte! :)
22.9.09
23.10.08
Introdução
Eu sofria com a minha barriga há tempos. Eu vivia passando mal. Em junho de 2008, veio a primeira crise, fui parar no PS e decidi marcar consulta com um gastro. A consulta ficou marcada para o final de julho e eu não gostei muito do médico. Ele pediu um ultra-som. O diagnóstico? Pedra na vesícula. Retornei em outro médico, que me pediu uma endoscopia e mais um ultra-som. Fato: eu precisaria retirar a vesícula. Ele pediu exames de sangue e uma consulta com o cardiologista para não ter complicações, mas antes que eu pudesse marcar um retorno, a crise estourou. Vocês conferem tudo o que aconteceu abaixo.
Esse relato tem o intuito de ajudar as pessoas que vão fazer a cirurgia de retirada da vesícula e para quem já tirou (e com certeza vai se identificar com grande parte das coisas aqui descritas). Eu comecei a escrever essas linhas no hospital, eu precisava compartilhar isso de alguma forma. Eu precisava mostrar para as pessoas a burocracia do sistema do meu convênio, que é particular. Uma amiga minha, enfermeira, me disse que se eu tivesse isso a um hospital público, talvez não teria sofrido tanto, porque a burocracia é menor e assim que se detecta um problema grave, eles já tomam logo providências, diferente do que aconteceu comigo. Eu sofri muito. Mas isso não quer dizer que todo mundo que vai passar por isso vai sofrer também. Cada caso é um caso, como eu descobri na comunidade do Orkut Somos sem vesícula – e aqui vai um grande obrigada a todos da comunidade que me ajudaram, relatando seus casos, me fazendo sentir de certa forma acolhida.
Dedico esse relato principalmente a meus amigos, que ficaram super preocupados comigo e curiosos sobre o que eu estava passando. Isso foi tudo o que aconteceu. Obrigada a todos vocês!
“Paciência”, Lenine
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára...
Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...
Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...
O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...
Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não...
Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não...
A vida não pára!...
A vida é tão rara!...
Esse relato tem o intuito de ajudar as pessoas que vão fazer a cirurgia de retirada da vesícula e para quem já tirou (e com certeza vai se identificar com grande parte das coisas aqui descritas). Eu comecei a escrever essas linhas no hospital, eu precisava compartilhar isso de alguma forma. Eu precisava mostrar para as pessoas a burocracia do sistema do meu convênio, que é particular. Uma amiga minha, enfermeira, me disse que se eu tivesse isso a um hospital público, talvez não teria sofrido tanto, porque a burocracia é menor e assim que se detecta um problema grave, eles já tomam logo providências, diferente do que aconteceu comigo. Eu sofri muito. Mas isso não quer dizer que todo mundo que vai passar por isso vai sofrer também. Cada caso é um caso, como eu descobri na comunidade do Orkut Somos sem vesícula – e aqui vai um grande obrigada a todos da comunidade que me ajudaram, relatando seus casos, me fazendo sentir de certa forma acolhida.
Dedico esse relato principalmente a meus amigos, que ficaram super preocupados comigo e curiosos sobre o que eu estava passando. Isso foi tudo o que aconteceu. Obrigada a todos vocês!
“Paciência”, Lenine
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára...
Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...
Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...
O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...
Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não...
Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não...
A vida não pára!...
A vida é tão rara!...
Dia 2 – Domingo, 14 de setembro de 2008
Minha tia mais próxima, a tia Irene, almoçou em casa. Mas a minha comida era especial: arroz sem óleo, purê sem margarina, uma carninha leve e mandioca cozida. O pior é que estava gostoso. Duas horas depois, a dor: doía na boca do estômago, no intestino, até nas costas. Às 5 e meia da tarde, lá estava eu no mesmo PS do dia anterior. Mais um furo. Mais um exame de sangue, dois soros na veia. Os médicos perguntaram: “E a cirurgia, quando vai ser?”. Não sabemos. Nem temos a consulta de retorno marcada com o médico. Mas amanhã, vamos ligar lá. “É urgente, urgentíssimo”, disse minha mãe.
Dia 1 – Sábado, 13 de Setembro de 2008
Era sábado. Fui para a aula de teatro, animada. Finalmente estávamos começando a trabalhar com textos. Ainda que eu tivesse passado mal no dia anterior, eu já me sentia melhor em relação ao meu estômago. Logo, não me preocupei muito quando comi um enrolado de presunto e queijo na hora do intervalo.
Foi a gota d’água. Eu nunca mais seria a mesma.
A barriga não demorou para começar a reclamar. Ensaiamos a cena, decoramos as falas, mas a dor incomodava. Apresentamos a cena. E a partir daí a dor foi se intensificando, até eu pedir para ir embora. Eram 7 da noite.
Às 7 e meia eu estava deitada numa maca do Pronto Socorro do Hospital Albert Sabin, no bairro da Lapa, em São Paulo, gritando “eu vou morrer”, ao que a médica respondia “não, não vai”.
Se eu soubesse o que viria pela frente, eu teria gritado “Por favor, me mate”. Mas eles não fazem esse maldito favor por você. Eles sempre querem te manter vivo, não importa o quanto você esteja sofrendo.
O Policial Militar que eu encontrei no meio do caminho e dirigiu meu carro até o hospital devolveu minha chave. Eu me contorcia de dor, onde estavam os enfermeiros? Um deles veio furar minha veia. Santo remédio. A dor aguda e constante que eu sentia passou em uns 30 segundos – foi o que me pareceu, pelo menos. A percepção de tempo nessas horas é completamente modificada. Depois veio um barato que me deixou sonolenta. Quando meu namorado Gabriel chegou lá, eu já estava bem. Sem dor. Colheram meu exame de sangue – o primeiro de milhões – e pediram para eua guardar o médico que faria um ultra-som. Esperamos. Liguei para a minha mãe, avisei o que tinha acontecido e que eu já estava bem. Fizeram o ultra-som, e a médica, Dra. Luisa, me disse que eu estava com pedra na vesícula (jura?) e que eu não podia comer absolutamente NADA que tivesse gordura.
Eu ficaria feliz com essa informação, se soubesse o que viria pela frente.
Foi a gota d’água. Eu nunca mais seria a mesma.
A barriga não demorou para começar a reclamar. Ensaiamos a cena, decoramos as falas, mas a dor incomodava. Apresentamos a cena. E a partir daí a dor foi se intensificando, até eu pedir para ir embora. Eram 7 da noite.
Às 7 e meia eu estava deitada numa maca do Pronto Socorro do Hospital Albert Sabin, no bairro da Lapa, em São Paulo, gritando “eu vou morrer”, ao que a médica respondia “não, não vai”.
Se eu soubesse o que viria pela frente, eu teria gritado “Por favor, me mate”. Mas eles não fazem esse maldito favor por você. Eles sempre querem te manter vivo, não importa o quanto você esteja sofrendo.
O Policial Militar que eu encontrei no meio do caminho e dirigiu meu carro até o hospital devolveu minha chave. Eu me contorcia de dor, onde estavam os enfermeiros? Um deles veio furar minha veia. Santo remédio. A dor aguda e constante que eu sentia passou em uns 30 segundos – foi o que me pareceu, pelo menos. A percepção de tempo nessas horas é completamente modificada. Depois veio um barato que me deixou sonolenta. Quando meu namorado Gabriel chegou lá, eu já estava bem. Sem dor. Colheram meu exame de sangue – o primeiro de milhões – e pediram para eua guardar o médico que faria um ultra-som. Esperamos. Liguei para a minha mãe, avisei o que tinha acontecido e que eu já estava bem. Fizeram o ultra-som, e a médica, Dra. Luisa, me disse que eu estava com pedra na vesícula (jura?) e que eu não podia comer absolutamente NADA que tivesse gordura.
Eu ficaria feliz com essa informação, se soubesse o que viria pela frente.
Dia 3 – Segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Não fui trabalhar. Fiquei com dor o dia inteiro, mesmo comendo coisas leves. Haja Buscopan, comprimido e gotas. Eu reclamando que não agüentava mais a dor, minha mãe falando para eu suportar até amanhã, que conseguimos a consulta com o médico.
Não agüentei. De madrugada, fomos ao PS. O Gabriel levou a gente. Um sorinho com medicamento aliviou a minha barra. O médico parecia estagiário. Devia ser. Voltamos para casa. Demorei a dormir.
Não agüentei. De madrugada, fomos ao PS. O Gabriel levou a gente. Um sorinho com medicamento aliviou a minha barra. O médico parecia estagiário. Devia ser. Voltamos para casa. Demorei a dormir.
Dia 4 – Terça-feira, 16 de setembro de 2008
O pior dia de todos, até agora. Fomos ao consultório do Dr. Hélio Smolentzov, meu gastro. Ele verificou os exames e concluiu: “Vamos tirar essa vesícula. É uma cirurgia simples. Mas eu não posso fazer agora. Vou viajar na sexta-feira para um Congresso. Mas nesse mesmo prédio tem um médico que pode fazer isso”. Como era horário de almoço, fomos comer para esperar esse outro médico voltar. Eu comi um pão francês com filé de frango grelhado, o Gabriel comeu um misto quente deliciosamente cheiroso e apetitoso. Ao chegar no consultório do Dr. Paulo Bianchini, a sua secretária, Edna, nos disse que ele não estava lá hoje, e que ele também iria ao Congresso. Xinguei os malditos deuses, e não sei se por causa do nervoso, da comida ou dos dois, comecei a passar bem mal. De novo. A mesmas dores conhecidas, unidas ao desespero de não ter um maldito médico disposto a cuidar de mim, de não saber quando seria a cirurgia... O pesadelo estava só começando.
Edna nos informou que, se fôssemos direto ao hospital, lá haveria cirurgiões de plantão. Ela nos recomendou o Santa Isabel e o Santa Helena, ambos do meu plano de saúde, a Unimed Paulistana. O primeiro estava mais próximo e foi a nossa opção.
2 da tarde. Chegamos ao Santa Isabel. Dores fortes. Mais furo na veia, mais soro, mais exame de sangue. Fizeram mais um ultra-som em mim, enquanto eu estava com dor! E sujaram toda minha calcinha de gel! Aí apareceu um médico com uma novidade: uma pedra que estava na vesícula migrou para o canal da bile (coléduco). O caso era pior do que pensávamos. Era preciso fazer uma endoscopia específica, que empurraria essa pedrinha para o intestino. No entanto, o Santa Isabel não fazia esse procedimento, de forma que eu precisava ser transferida. Eu também não poderia me alimentar, já que o exame seria feito logo após minha chegada ao novo hospital. O processo burocrático ficou evidente. Eram 6 da tarde. A demora para determinar para qual hospital eu iria, e que horas, deixou eu, minha mãe e meu namorado bem nervosos e ansiosos. Às 9 da noite eu ainda estava esperando a ambulância me transferir para o Hospital Santa Cruz. Fiquei putíssima, tirei o acesso da minha veia, gritei com os enfermeiros, a minha mãe começou a chorar e os seguranças filhos da puta com sua força bruta me impediram de tentar tomar um táxi até o hospital. Em 10 minutos, chegou uma ambulância. Perguntamos se eles haviam demorando porque vieram do Santa Cruz.
- Não, a gente saiu da Central da Unimed. É aqui perto. – respondeu o mocinho da ambulância.
- Então por que a demora? – perguntou minha mãe.
- Aí eu não sei, senhora.
- A gente tá indo para o Santa Cruz.
- Aqui tá escrito Cruz Azul.
- Mas disseram para a gente que era Santa Cruz.
- Não, senhora, é o Cruz Azul, um hospital militar, no Cambuci. É do mesmo nível do Santa Isabel.
Eu queria matar todo mundo.
Chegamos no hospital. Feio, velho, sórdido. Claro que me puncionaram de novo. Um enfermeiro todo malandrão, que minha mãe odiou. Fiquei no repouso enquanto ela abria minha ficha. Mas o meu ânimo já estava lá embaixo. Uns 10 minutos depois, ela veio, dizendo que a médica responsável, a Dra. Liliane, queria que eu passasse a noite lê, em jejum, que de manhã o cirurgião iria verificar meu quadro clínico.
20 minutos depois, estávamos em um táxi, voltando para casa. Eu chorava no banco de trás. A minha mãe vociferava contra todos os filhos da puta responsáveis por essa palhaçada toda, a confusão do nome do hospital, a saúde no Brasil está doente, a gente paga convênio e ainda se ferra. O taxista ouvia tudo com paciência. Chegando em casa, tomei chá com biscoito. Não conseguia dormir. Estava com trauma de hospital. Fizeram sacanagem com a gente, e até agora eu não sabia quando eu ia ser operada. A minha mãe e minha tia me acalmaram, e eu finalmente dormi.
Edna nos informou que, se fôssemos direto ao hospital, lá haveria cirurgiões de plantão. Ela nos recomendou o Santa Isabel e o Santa Helena, ambos do meu plano de saúde, a Unimed Paulistana. O primeiro estava mais próximo e foi a nossa opção.
2 da tarde. Chegamos ao Santa Isabel. Dores fortes. Mais furo na veia, mais soro, mais exame de sangue. Fizeram mais um ultra-som em mim, enquanto eu estava com dor! E sujaram toda minha calcinha de gel! Aí apareceu um médico com uma novidade: uma pedra que estava na vesícula migrou para o canal da bile (coléduco). O caso era pior do que pensávamos. Era preciso fazer uma endoscopia específica, que empurraria essa pedrinha para o intestino. No entanto, o Santa Isabel não fazia esse procedimento, de forma que eu precisava ser transferida. Eu também não poderia me alimentar, já que o exame seria feito logo após minha chegada ao novo hospital. O processo burocrático ficou evidente. Eram 6 da tarde. A demora para determinar para qual hospital eu iria, e que horas, deixou eu, minha mãe e meu namorado bem nervosos e ansiosos. Às 9 da noite eu ainda estava esperando a ambulância me transferir para o Hospital Santa Cruz. Fiquei putíssima, tirei o acesso da minha veia, gritei com os enfermeiros, a minha mãe começou a chorar e os seguranças filhos da puta com sua força bruta me impediram de tentar tomar um táxi até o hospital. Em 10 minutos, chegou uma ambulância. Perguntamos se eles haviam demorando porque vieram do Santa Cruz.
- Não, a gente saiu da Central da Unimed. É aqui perto. – respondeu o mocinho da ambulância.
- Então por que a demora? – perguntou minha mãe.
- Aí eu não sei, senhora.
- A gente tá indo para o Santa Cruz.
- Aqui tá escrito Cruz Azul.
- Mas disseram para a gente que era Santa Cruz.
- Não, senhora, é o Cruz Azul, um hospital militar, no Cambuci. É do mesmo nível do Santa Isabel.
Eu queria matar todo mundo.
Chegamos no hospital. Feio, velho, sórdido. Claro que me puncionaram de novo. Um enfermeiro todo malandrão, que minha mãe odiou. Fiquei no repouso enquanto ela abria minha ficha. Mas o meu ânimo já estava lá embaixo. Uns 10 minutos depois, ela veio, dizendo que a médica responsável, a Dra. Liliane, queria que eu passasse a noite lê, em jejum, que de manhã o cirurgião iria verificar meu quadro clínico.
20 minutos depois, estávamos em um táxi, voltando para casa. Eu chorava no banco de trás. A minha mãe vociferava contra todos os filhos da puta responsáveis por essa palhaçada toda, a confusão do nome do hospital, a saúde no Brasil está doente, a gente paga convênio e ainda se ferra. O taxista ouvia tudo com paciência. Chegando em casa, tomei chá com biscoito. Não conseguia dormir. Estava com trauma de hospital. Fizeram sacanagem com a gente, e até agora eu não sabia quando eu ia ser operada. A minha mãe e minha tia me acalmaram, e eu finalmente dormi.
Dia 6 – Quinta-feira, 18 de setembro de 2008
O médico me acordou bem cedo, dizendo que eu seria transferida naquele dia mesmo para o Hospital Santa Helena, a fim de fazer a endoscopia. Portanto, eu tinha que ficar em jejum. O dia inteiro. Seria o primeiro de muitos dias de fome. A minha mãe e minha tia ficaram discutindo o que cada uma tinha almoçado. Pedi para elas não falarem sobre comida na minha frente. O dia transcorreu tranqüilamente, em companhia dos VJs da MTV. Lá pelas 5 e meia, chegou a ambulância que me levou para o Hospital Santa Helena. Eu finalmente iria me livrar de tudo isso! Foi legal andar de ambulância. Ele usou até a sirene! O problema é que, chegando lá, eu achava que ia direto para o quarto. Que nada, a maior burocracia. Fui obrigada a ir primeiro para o PS, onde fui novamente puncionada por uma enfermeira sem amor no coração, e eles já me enfiaram Buscopan e Plasil. Foi o pior momento de todos. Eu queria morrer. Eu implorei a Deus que me matasse. Eu tinha saído de um quarto confortável para aquele PS cheio de gente. E eu estava numa cadeira de rodas, de pijama, urrando de tristeza. Para mim, eu poderia morrer ali mesmo. Eu não queria mais viver, estava profundamente farta disso tudo. Depois eles me colocaram numa maca, onde comi uma gelatina. Eu não comeria de novo em 4 dias.
Dia 5 – Quarta-feira, 17 de setembro de 2008
6 horas da manhã. Acordei com a mesma dor lancinante. Cheguei ao limite. Estava decidida a ser internada. Mas onde? Bom, de imediato eu precisava tirar a dor. Mandei um comprimido de Buscopan, me troquei, peguei a bolsa e desci o elevador, minha mãe reclamando, querendo que eu esperasse. Esperar o que? As pedrinhas estavam no canal e precisavam sair logo de lá.
Fiquei com dó do zelador do meu prédio, o Mauro, que não podia abandonar a portaria para me levar. Pegamos um táxi até o Hospital Albert Sabin, perto de casa. Chegando lá, as pessoas já me conheciam, mas eu só ouvia. Os olhos permaneciam fechados de dor. Me colocaram na maca, enquanto eu gritava “eu vou morrer”, chorando. As enfermeiras (tinham várias dessa vez) ficaram procurando veias no meu braço para puncionar. Enfim encontraram uma no braço direito, mas não souberam fazer direito o trabalho. Urrei e chorei de dor, e proibi qualquer tentativa de me furarem de novo. A dor começou a passar. Era 8 e meia. Efeito do Buscopan que eu tomei em casa. Uma outra enfermeira, que nem sei de onde surgiu, segurava a minha mão. Comecei a chora compulsivamente, mas não era de dor. Era um desabafo. Falei tudo para ela: que eu não agüentava mais, que eu estava perdendo aula na faculdade, faltando no trabalho, que meu médico era um cuzão porque foi para o Congresso e me deixou naquele estado, que eu odiava aquele Hospital Santa Isabel que era super chique, mas não resolviam porra nenhuma, chorei, chorei, e ela me ouviu. Me acalmei. Veio outro enfermeiro, o Everton, e eu implorei para ele me internar, porque eu não agüentava mais. Ele comprou a minha causa. Brigou com o pessoal da Unimed, e finalmente consegui ser internada. Mas o dia estava longe de acabar.
Instalada no quarto 202, fiquei mais tranqüila. Começou a rotina hospitalar, a qual eu me acostumaria pela próxima semana. Enfermeiros vinham com soro e remédios. O médico passou para avisar que ia marcar a endoscopia, e liberou a dieta leve, que significa: nada de tempero ou gordura. Nhé. Minha mãe e meu namorado se revezaram para pegar roupas e objetos e ficar comigo. Liguei a TV na MTV. Fazia tempo que não assistia. Até gostei dos programas. E me lembrei que um dia eu já quis muito trabalhar lá. Tempos distantes.
Foi anoitecendo. Eu comecei a sentir dor de novo. Nem lembro porque, mas acabei discutindo com a minha mãe - ela devia estar brigando com o Gabriel – e eu expulsei os dois do quarto. Queria comer em paz, e eles ficavam naquele blá blá blá. Comi a comida sem gosto, já fria, chorando. A dor aumentava. Quando percebi, eu estava me contorcendo na cama. Minha pior cólica menstrual era fichinha perto disso. Eu me agarrava ao travesseiro, gritava, arranhava o lençol com minhas unhas. Aqueles foram os piores minutos de toda a minha vida. Liguei para o Gabriel, mas ele tinha ido até a minha casa para pegar meu Nintendo DS. Gritei para minha mãe voltar, mas ela estava naquele maldito mau humor. Eu urrava de dor, e tudo que ela dizia era: “Pára de ser escandalosa”. Eu estava completamente sozinha.
Logo chegou o namorado, e a enfermeira me aplicou morfina. A dor acalmou. Mas meus olhos continuaram inchados e meu coração, assustado e abandonado.
O Gabriel foi embora. Eu e minha mãe assistimos novela, Ugly Betty (que se tornaria minha nova série favorita) e depois eu dormi.
Fiquei com dó do zelador do meu prédio, o Mauro, que não podia abandonar a portaria para me levar. Pegamos um táxi até o Hospital Albert Sabin, perto de casa. Chegando lá, as pessoas já me conheciam, mas eu só ouvia. Os olhos permaneciam fechados de dor. Me colocaram na maca, enquanto eu gritava “eu vou morrer”, chorando. As enfermeiras (tinham várias dessa vez) ficaram procurando veias no meu braço para puncionar. Enfim encontraram uma no braço direito, mas não souberam fazer direito o trabalho. Urrei e chorei de dor, e proibi qualquer tentativa de me furarem de novo. A dor começou a passar. Era 8 e meia. Efeito do Buscopan que eu tomei em casa. Uma outra enfermeira, que nem sei de onde surgiu, segurava a minha mão. Comecei a chora compulsivamente, mas não era de dor. Era um desabafo. Falei tudo para ela: que eu não agüentava mais, que eu estava perdendo aula na faculdade, faltando no trabalho, que meu médico era um cuzão porque foi para o Congresso e me deixou naquele estado, que eu odiava aquele Hospital Santa Isabel que era super chique, mas não resolviam porra nenhuma, chorei, chorei, e ela me ouviu. Me acalmei. Veio outro enfermeiro, o Everton, e eu implorei para ele me internar, porque eu não agüentava mais. Ele comprou a minha causa. Brigou com o pessoal da Unimed, e finalmente consegui ser internada. Mas o dia estava longe de acabar.
Instalada no quarto 202, fiquei mais tranqüila. Começou a rotina hospitalar, a qual eu me acostumaria pela próxima semana. Enfermeiros vinham com soro e remédios. O médico passou para avisar que ia marcar a endoscopia, e liberou a dieta leve, que significa: nada de tempero ou gordura. Nhé. Minha mãe e meu namorado se revezaram para pegar roupas e objetos e ficar comigo. Liguei a TV na MTV. Fazia tempo que não assistia. Até gostei dos programas. E me lembrei que um dia eu já quis muito trabalhar lá. Tempos distantes.
Foi anoitecendo. Eu comecei a sentir dor de novo. Nem lembro porque, mas acabei discutindo com a minha mãe - ela devia estar brigando com o Gabriel – e eu expulsei os dois do quarto. Queria comer em paz, e eles ficavam naquele blá blá blá. Comi a comida sem gosto, já fria, chorando. A dor aumentava. Quando percebi, eu estava me contorcendo na cama. Minha pior cólica menstrual era fichinha perto disso. Eu me agarrava ao travesseiro, gritava, arranhava o lençol com minhas unhas. Aqueles foram os piores minutos de toda a minha vida. Liguei para o Gabriel, mas ele tinha ido até a minha casa para pegar meu Nintendo DS. Gritei para minha mãe voltar, mas ela estava naquele maldito mau humor. Eu urrava de dor, e tudo que ela dizia era: “Pára de ser escandalosa”. Eu estava completamente sozinha.
Logo chegou o namorado, e a enfermeira me aplicou morfina. A dor acalmou. Mas meus olhos continuaram inchados e meu coração, assustado e abandonado.
O Gabriel foi embora. Eu e minha mãe assistimos novela, Ugly Betty (que se tornaria minha nova série favorita) e depois eu dormi.
Dia 7 – Sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Fui hospedada no quarto 807, onde eu ficaria os próximos 6 dias. Logo que acordei, já saquei o ambiente. O quarto era lindo! Tinha uma parede azul, a janela era grande (como no meu quarto), tinha sofazinho, poltrona, mesinha, um lavabo, televisão, e um banheirão de suíte! Amei! A parte ruim é que eu ia ficar em jejum de novo. A parte boa é que eu faria a endoscopia às 5 da tarde, como me informou a enfermeira-chefe Felicia, um amorzinho. Às 4 me pegaram no quarto, para me levarem para a sala da anestesia. Minha mãe estava mais calma, acho que porque finalmente as coisas estavam caminhando. Conversamos enquanto esperávamos. A endoscopia era o seguinte: eles empurrariam a pedrinha que estava no canal da bile para o intestino, e eu a evacuaria. Um sucesso. Quando acordei da anestesia, cheguei a vomitar bile, porque não tinha nada no meu estômago. Quando cheguei no quarto, já estava sem dor. Rezei, agradeci, nem acreditei que o pesadelo estava quase acabando. À noite, minha prima mais velha foi me visitar. Mas eu ainda não poderia comer, porque esse processo todo facilitou o aparecimento de uma leve pancreatite. Só quando ela fosse embora eu poderia fazer a cirurgia da vesícula. O jeito era esperar.
Dia 8 – Sábado, 20 de setembro de 2008
O hospital que eu fiquei era na Liberdade. Então eu logo pensei em todas aquelas maravilhas que estavam ali próximas de mim: yakissoba, nikuman, mupy, bolinho de polvo... e eu não poderia comê-las, como me avisou a enfermeira-chefe Maria Aparecida Brandão. Logo pela manhã colheram um exame de sangue (mais furos no meu braço para a minha coleção), e ela trouxe o resultado fatídico: mais um dia sem comer. Ela falou de um jeito tão idiota, sabe? Eu fiquei mal. Eu joguei o controle remoto no chão. Eu xinguei aquela mulher, meu carrasco que não me permitiria me alimentar. Não agüentava mais aquele soro e aqueles antibióticos fortíssimos (1g a cada 8 horas). Ela nunca mais voltou para o meu quarto.
O dia transcorreu sem grandes revelações. Eu estava aliviada de não sentir mais dor. Mas eu precisava esperar. Os minutos, as horas, o dia. A noite. Foi uma lição de paciência. E eu nem fiquei desesperada. Apenas deixei o tempo transcorrer, porque um minuto é sempre um minuto. O que muda é a nossa percepção. E a minha deveria estar boa, porque o dia passou bem rápido.
O dia transcorreu sem grandes revelações. Eu estava aliviada de não sentir mais dor. Mas eu precisava esperar. Os minutos, as horas, o dia. A noite. Foi uma lição de paciência. E eu nem fiquei desesperada. Apenas deixei o tempo transcorrer, porque um minuto é sempre um minuto. O que muda é a nossa percepção. E a minha deveria estar boa, porque o dia passou bem rápido.
Dia 9 – Domingo, 21 de setembro de 2008
Logo cedinho o Dr. Luis Fernando veio me visitar, e até fez um desenho para me explicar porque eu precisava ficar sem comer. Eu entendi perfeitamente e disse que nem ligava mais pra comida. Ele disse que estava confiante que na segunda-feira, faríamos a cirurgia. Eu também estava.
A minha rotina é baseada no horário das refeições. Logo, eu fiquei meio perdida. Era engraçado acordar, escovar os dentes e partir para as atividades – ver televisão e ler o jornal que minha mãe comprou para mim. Enquanto as pessoas saíam para comer, eu ficava lá, esperando o tempo passar, recebendo o antibiótico que diminuiria minha pancreatite.
Em dado momento, a enfermeira precisava me puncionar de novo, para trocar o acesso de braço. Um acesso não pode ficar mais do que 3 dias no mesmo lugar. Eu pedi para tomar banho sem o acesso e ela deixou. Foi ótimo ficar livre daquilo por alguns momentos. Até aproveitei para dar um volta no corredor. Era a primeira vez que eu saía do quarto com meus próprios pés. Encontrei uma balança e me pesei. Um susto: eu estava com 39 kg. E eu meço 1,60 m.
As enfermeiras voltaram. Eu conversei bastante com uma delas, a Jailza. Ela foi um amor, conversou bastante comigo. Uma história impressionante. Ela mora em Parelheiros e trabalha lá na Liberdade. Mas ela nem se importa, porque ela está realizando o sonho dela. Que lindo.
Nesse domingo eu joguei bastante Nintendo DS. O jogo? Cooking Mama. Basicamente, você prepara suas receitas favoritas. Apesar de parecer estranho, acho que eu me “alimentei” através desse joguinho, e ainda por cima tomei gosto pela coisa: quero começar a cozinhar. Afinal, eu tenho 25 anos e já estava mais do que na hora.
Nesse dia, minha tia veio me visitar e ela e minha mãe foram embora umas 7 da noite. Quem dormiu comigo no hospital foi o Gabriel. Foi bem legal, assisti a série Lipstick Jungle no canal Fox e logo em seguida o filme Legalmente Loira. Eu estava bem e feliz. Dormi confiante de que a cirurgia aconteceria no dia seguinte.
A minha rotina é baseada no horário das refeições. Logo, eu fiquei meio perdida. Era engraçado acordar, escovar os dentes e partir para as atividades – ver televisão e ler o jornal que minha mãe comprou para mim. Enquanto as pessoas saíam para comer, eu ficava lá, esperando o tempo passar, recebendo o antibiótico que diminuiria minha pancreatite.
Em dado momento, a enfermeira precisava me puncionar de novo, para trocar o acesso de braço. Um acesso não pode ficar mais do que 3 dias no mesmo lugar. Eu pedi para tomar banho sem o acesso e ela deixou. Foi ótimo ficar livre daquilo por alguns momentos. Até aproveitei para dar um volta no corredor. Era a primeira vez que eu saía do quarto com meus próprios pés. Encontrei uma balança e me pesei. Um susto: eu estava com 39 kg. E eu meço 1,60 m.
As enfermeiras voltaram. Eu conversei bastante com uma delas, a Jailza. Ela foi um amor, conversou bastante comigo. Uma história impressionante. Ela mora em Parelheiros e trabalha lá na Liberdade. Mas ela nem se importa, porque ela está realizando o sonho dela. Que lindo.
Nesse domingo eu joguei bastante Nintendo DS. O jogo? Cooking Mama. Basicamente, você prepara suas receitas favoritas. Apesar de parecer estranho, acho que eu me “alimentei” através desse joguinho, e ainda por cima tomei gosto pela coisa: quero começar a cozinhar. Afinal, eu tenho 25 anos e já estava mais do que na hora.
Nesse dia, minha tia veio me visitar e ela e minha mãe foram embora umas 7 da noite. Quem dormiu comigo no hospital foi o Gabriel. Foi bem legal, assisti a série Lipstick Jungle no canal Fox e logo em seguida o filme Legalmente Loira. Eu estava bem e feliz. Dormi confiante de que a cirurgia aconteceria no dia seguinte.
Dia 10 – Segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Acordei bem cedo, porque sempre vinha alguém no quarto para dar algum remédio, medir a pressão e a temperatura, fazer exame de sangue, e dessa vez veio o cirurgião para avisar que estava aguardando o resultado do exame para ver se a cirurgia ia ser feita. Às 9 da manhã ele ligou no ramal do meu quarto para avisar que a cirurgia seria às 10 e meia da manhã. Fiquei felicíssima! Um pouco nervosa, claro... Mas eu finalmente iria me livrar do meu problema para todo o sempre!
Acordei o Gabriel, liguei para a minha mãe e logo já vieram me buscar para a sala da anestesia. Ele foi comigo. Por coincidência, o anestesista era chileno, assim como minha sogra. Eles logo engataram um papo sobre a língua espanhola, do qual eu tentei participar. Em vão. A anestesia me derrubou.
Acordei com uma dor desgraçada na barriga. E tremendo de frio. E respirando fundo. Essa coisa da anestesia é muito louca. Eu tentava ver o relógio que estava bem na minha frente, na parede, mas ficava embaçado. Fechei os olhos, alguém colocou uma manta em cima de mim. Meu Deus, doía tudo, doía pra respirar. Percebi que tinha que me acalmar. Aos poucos fui tomando consciência das coisas. Tentei respirar fundo para me acalmar. Aos poucos fui ficando mais ou menos normal. Mas doía demais. Consegui finalmente ver o relógio: Eram 2 da tarde. Eles me deixaram lá até umas quase 3, quando me levaram para o quarto. Chegando lá, só encontrei o Gabriel. Cadê minha mãe? Ela tinha saído porque estavam demorando demais para me entregarem. Hunf. Dois enfermeiros puxaram o lençol de onde eu estava pra cima pra me colocarem na cama. Doeu tudo. E aí eu percebi porque doía. Tinha um dreno do lado direito da minha barriga. Um dreno é uma mangueira que fica metade pra dentro, metade pra fora de você, conectado a uma bolsinha para onde os seus fluidos são sugados. Terrível, me deu muita aflição. Logo minha mãe chegou, e eu fiquei lá morrendo de dor. Eu não conseguia levantar da cama de jeito nenhum. Doía demais, doía tudo. Me levaram janta, mas eu fiquei tanto tempo sem comer e estava com tanta dor que nem comi nada, só metade da gelatina e depois, duas bolachinhas de leite que vieram na ceia, e ainda fiz isso com a cama levantada porque eu não conseguia fazer força nenhuma no abdômen. Tive dificuldade para dormir com aquele dreno em mim. Mas a enfermeira disse que no dia seguinte, se eu conseguisse levantar, eu já podia ir pra casa. Eu não sabia como ia conseguir ir pra casa, sendo que nem respirar eu conseguia direito.
Acordei o Gabriel, liguei para a minha mãe e logo já vieram me buscar para a sala da anestesia. Ele foi comigo. Por coincidência, o anestesista era chileno, assim como minha sogra. Eles logo engataram um papo sobre a língua espanhola, do qual eu tentei participar. Em vão. A anestesia me derrubou.
Acordei com uma dor desgraçada na barriga. E tremendo de frio. E respirando fundo. Essa coisa da anestesia é muito louca. Eu tentava ver o relógio que estava bem na minha frente, na parede, mas ficava embaçado. Fechei os olhos, alguém colocou uma manta em cima de mim. Meu Deus, doía tudo, doía pra respirar. Percebi que tinha que me acalmar. Aos poucos fui tomando consciência das coisas. Tentei respirar fundo para me acalmar. Aos poucos fui ficando mais ou menos normal. Mas doía demais. Consegui finalmente ver o relógio: Eram 2 da tarde. Eles me deixaram lá até umas quase 3, quando me levaram para o quarto. Chegando lá, só encontrei o Gabriel. Cadê minha mãe? Ela tinha saído porque estavam demorando demais para me entregarem. Hunf. Dois enfermeiros puxaram o lençol de onde eu estava pra cima pra me colocarem na cama. Doeu tudo. E aí eu percebi porque doía. Tinha um dreno do lado direito da minha barriga. Um dreno é uma mangueira que fica metade pra dentro, metade pra fora de você, conectado a uma bolsinha para onde os seus fluidos são sugados. Terrível, me deu muita aflição. Logo minha mãe chegou, e eu fiquei lá morrendo de dor. Eu não conseguia levantar da cama de jeito nenhum. Doía demais, doía tudo. Me levaram janta, mas eu fiquei tanto tempo sem comer e estava com tanta dor que nem comi nada, só metade da gelatina e depois, duas bolachinhas de leite que vieram na ceia, e ainda fiz isso com a cama levantada porque eu não conseguia fazer força nenhuma no abdômen. Tive dificuldade para dormir com aquele dreno em mim. Mas a enfermeira disse que no dia seguinte, se eu conseguisse levantar, eu já podia ir pra casa. Eu não sabia como ia conseguir ir pra casa, sendo que nem respirar eu conseguia direito.
Dia 11 – Terça-feira, 23 de setembro de 2008
Acordei com a mesma dor. Mas agora não vinha mais antibiótico, era só dipirona e um outro medicamento para evitar vômitos. Aliás, não vomitei nenhuma vez depois da cirurgia, graças a Deus! Logo cedo, veio a enfermeira Ana Rita para tentar me colocar sentada, para eu comer e depois tomar banho. Ela também tirou meu dreno (quase vomitei, é muito esquisito, mexeu alguma coisa lá dentro, totalmente desconfortável). Levantamos a cama o máximo para que eu fizesse o mínimo esforço. Aí ela tentou me levantar, e eu senti uma dor absurda no abdômen e nas costas. Ela disse que eu fiquei branca. Eu só sei que fiquei surda. Ela falou para eu voltar a deitar. Mediu minha pressão: 8 por 5. Hoje não ia ter jeito. O médico passou depois e me deu mais um dia. Passei o dia inteirinho deitada, me alimentando com a cama levantada, sem fazer esforço nenhum. Assisti televisão o dia inteiro. Dormi mentalizando a imagem de mim mesma sentada. Tão elementar, tão difícil.
Dia 12 – Quarta-feira, 24 de setembro de 2008
O grande dia chegou. A minha despedida de tudo isso. Finalmente! Acordei confiante. Logo a enfermeira-chefe Felícia entrou no quarto, propondo um desafio: tomar café sentada. Aceitei! Ela me ajudou, e eu finalmente consegui sentar. Que vitória! Comi bem devagarinho o café da manhã, e logo o médico entrou dizendo que ia dar a alta. Que lindo! Tiraram o meu acesso. Eu não precisava mais ficar com aquele cateter na veia. Fim dos medicamentos, fim do pesadelo. Finalmente tomei um banho, sentada porque ainda estava dolorido. Me assustei com minha própria magreza e fraqueza. Mas eu estava bem. E não importava mais nada.
Depois dos trâmites burocráticos, me despedi do meu quartinho azul.
“- Tchau.”
E já estava começando a vontade de chorar.
Me despedi da Jailza e da outra enfermeira, dei um abraço apertado nelas. E fomos pegar o táxi. E eu vi a fachada do hospital, que eu não tinha visto quando entrei de ambulância. E vi as pessoas na rua, que eu via só pela janela, seguindo com suas vidas. E aí não deu, eu comecei a chorar. De volta à vida normal. Eu nunca mais seria a mesma. Ainda bem.
Depois dos trâmites burocráticos, me despedi do meu quartinho azul.
“- Tchau.”
E já estava começando a vontade de chorar.
Me despedi da Jailza e da outra enfermeira, dei um abraço apertado nelas. E fomos pegar o táxi. E eu vi a fachada do hospital, que eu não tinha visto quando entrei de ambulância. E vi as pessoas na rua, que eu via só pela janela, seguindo com suas vidas. E aí não deu, eu comecei a chorar. De volta à vida normal. Eu nunca mais seria a mesma. Ainda bem.
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